Numa estação de trem, Árion viu um homem de terno com o olhar parado — não chorava, era pior: parecia não sentir. Como se tivesse colocado o coração no modo avião. Perto dele, uma menina puxava a mãe pela manga; a mãe respondia “uhum” sem olhar. Não por crueldade — por exaustão. Havia ali uma sombra que não é ignorância de conteúdo. É cegueira do íntimo.
Existe uma ignorância que não se resolve com informação. Você pode ler todos os livros, ouvir todos os podcasts, decorar todos os nomes das estrelas — e ainda assim andar por dentro como um quarto apagado. Ela tem três níveis: a ignorância do SER (esquecer que somos mais que um papel), a ignorância da UNIDADE (acreditar que estamos separados), e a ignorância do PROPÓSITO (viver sem sentido, como folha ao vento).
Mas a própria escuridão nos mostra onde está a luz. A angústia da separação empurra para a união. O vazio existencial clama por significado. A solidão sussurra sobre um amor maior. A dor não é só inimiga — é mensageira.
E há em você uma saudade sem nome. Não é do passado. É de uma integridade que você pressente ser possível. Ninguém sente saudade do que não tem parentesco interno. Se você sente, é porque existe em você um órgão capaz de reconhecer o real.
A esperança não é balão frágil. É brasa. Pode ficar sob cinzas, mas não some fácil. Ela não precisa de aplauso. Precisa de água. E a água mais simples é isto: pare, sinta os pés, respire. “Eu estou aqui. Eu existo. Eu respiro.” Só isso, por três respirações. Já é retorno.